Nutram Salud Comunitaria
Porque nos llamamos Nütram

El Nütram es un relato oral, transmitido de generación en generación Mapuche. Es el arte de conversar utilizando el instrumento esencial en el ser humano, la palabra. En el Nütram el pueblo mapuche relata la historia de su familia, sus alegrias y tristezas. El Nütram es un género discursivo mapuche que entiende que la palabra, unida a la historia y a la actividad cotidiana, toca a otros y otras y constituye su memoria colectiva.

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Como a Terapia Comunitária Integrativa tem ajudado pessoas a enfrentarem o sofrimento durante a Pandemia da Covid-19?

“Confinados nos desligamos do social para religarmos com a família e nossa casa interior».

(Adalberto Barreto)

Embora as pandemias sejam milenares, a Covid-19 está sendo única no que concerne sua amplitude, magnitude e rapidez, já que pessoas em mais de 213 países em todo o mundo foram afetadas simultaneamente, em um curto período de tempo1 . Além de mitigar os impactos danosos de casos e óbitos por Covid-19, há outro desafio necessário para preservar vidas: em uma pandemia, o medo e os níveis de ansiedade e de estresse em indivíduos saudáveis aumentam e os sintomas daqueles com distúrbios psiquiátricos pré-existentes intensificam.

Em um cenário em que há um interesse significativo nos recursos vinculados às Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS), no manejo da Covid192 , sabe-se que vem ocorrendo a oferta de PICS na atenção primária e em serviços especializados de forma presencial e/ou virtual, por meio do telecuidado, tais como as rodas de Terapia Comunitária Integrativa on-line.

A Terapia Comunitária Integrativa (TCI) é uma abordagem interpessoal genuinamente brasileira, que nasce pelo trabalho de Adalberto de Paula Barreto, com a colaboração de Airton Barreto, em 1987, em Fortaleza (CE), que, ao longo das décadas, tem se expandindo a partir da Atenção Primária à Saúde (APS), nacional e internacionalmente, em países da América Latina, Europa e África. No contexto do Sistema Único de Saúde (SUS), a TCI foi aprovada a partir da Portaria 849/2017.

A TCI é uma estratégia de cuidado solidário, realizada em grupos, com o objetivo de promover a saúde mental, construir redes de apoio social e vínculos saudáveis, estimular relações que possibilitam compartilhar experiências, resgatar habilidades e superar adversidades.

A TCI está ancorada em cinco fundamentos: pensamento sistêmico; pragmática da comunicação; antropologia cultural; pedagogia de Paulo Freire; e resiliência. Seu método pauta-se em etapas e regras3 , onde o recurso é a palavra para dar voz às emoções, uma vez que ao verbalizar sentimentos nos conectamos com a nossa humanidade4 .

A TCI no cenário de isolamento social

A partir do início da pandemia pelo novo coronavírus no Brasil, as rodas de TCI, que historicamente eram realizadas de forma grupal e presencial, foram testadas para assumir um novo modus operandi no ambiente virtual, utilizando para isso diversas plataformas, como o WhatsApp, Zoom, Google Meet, entre outras. Esta prática rapidamente espalhou-se em diversas partes do país e da América Latina, com apoio da Associação Brasileira de Terapia Comunitária Integrativa (Abratecom) e da Associação Brasileira de Psiquiatria Social (APSBRA).

Para dar sustentação ao processo de mudança na forma de realizar as rodas de TCI, vale destacar três aspectos que impulsionaram o seu crescimento neste período de pandemia:

1) A Abratecom criou um Grupo de Trabalho com o objetivo de traçar diretrizes para a realização das rodas de TCI on-line, apontando os cuidados metodológicos e tecnológicos para realizá-las;

2) Implementação de parcerias estabelecidas entre a Abratecom, APSBRA e a Coordenação Nacional das PICS do MS para o oferecimento de rodas de TCI on-line, destinada aos profissionais de saúde, especialmente àqueles e àquelas que estão na linha de frente no combate à Covid-19. Desde abril, foi construída uma agenda contendo mais de 20 rodas de TCI online por semana, em diferentes horários, disponibilizada pelo ObservaPICS/Fiocruz-PE;

3) Incentivo e capacitação para o registro das rodas realizadas por parte dos polos da rede Abratecom e terapeutas comunitários.

Sistema de Registro das Rodas de TCI pelos Polos de Formação

A cultura para o registro, monitorização e avaliação das PICS é fundamental para dar visibilidade à magnitude e a sua importância no cenário brasileiro. Esta diretriz coaduna com os objetivos da PNPIC e de documentos sobre Medicinas Tradicionais da Organização Mundial da Saúde (OMS). Com a chegada da pandemia no Brasil, percebeu-se a necessidade iminente de quantificar e caracterizar o movimento que ocorria de realização de rodas de TCI on-line e, concomitantemente, estimular e capacitar o maior número de atores envolvidos neste processo.

Dentre os 42 Polos de Formação/Cuidado em TCI, tem-se verificado diferentes movimentos no que concerne ao registro das rodas, como polos que estão realizando rodas, mas que têm dificuldades para o seu registro, polos que têm seus sistemas próprios de registro e polos que estão utilizando o sistema de informação SISrodas (22 polos)5 .

No que diz respeito ao SISrodas, de abril a julho, no Brasil, foram ofertados treinamentos, formação de equipes de trabalho para apoiar os registros de informações para os polos que apresentavam maiores limitações.

Foram 398 rodas registradas, com 9.706 participantes, de 15 países diferentes, sendo 61,7% mulheres adultas e 23% de mulheres idosas. Os temas mais frequentes foram estresse (29%), conflitos familiares (16%) e depressão (16%). Em relação às estratégias de enfrentamento, surgiram principalmente empoderamento pessoal e autocuidado (40%), redes solidárias (20%) e ajuda religiosa/espiritual (15%). A aprendizagem que mais chama a atenção é a capacidade resiliente de fazer dos acontecimentos traumáticos ocasião para criar6 .

É necessário lembrar que estes dados não refletem a totalidade do que, efetivamente, tem acontecido na prática das rodas de TCI on-line. Avançamos muito no que se refere ao registro, mas ainda há muito mais que progredir para trazer, de fato, uma dimensão mais fidedigna ao movimento vivo que se tem dado neste contexto de crise.

No ambiente virtual, como acontecem as rodas de TCI durante a pandemia, as
emoções ocorrem ao falar constatando que os limites geográficos e a distância física não são empecilhos para estabelecer relações advindas dos sentimentos relatados durante a realização das mesmas. Essa interação recursiva, dada no escutar e conversar, sobre nossas emoções, tem favorecido a criação e o fortalecimento de vínculos saudáveis, solidários e comunitários.

A vitalidade comunitária como recurso para aliviar o sofrimento

Vale a pena ser valorizado, neste contexto de múltiplas mudanças a partir da pandemia, que a TCI tem demonstrado significativa capilaridade geográfica, afetiva e social (BARRETO et al, 2020)6 . Isto nos remete ao conceito de vitalidade comunitária que é caracterizada por relacionamentos fortes, ativos e inclusivos entre os atores na própria comunidade e fora dela, envolvendo parcerias com setor público, setor privado e organizações da sociedade civil que trabalham para promover bem-estar individual e coletivo7 .

As comunidades de atores em TCI são inteiramente vivas, ativas e coadunam com a ideia de “comunidades vitais”, aquelas capazes de cultivar e organizar relacionamentos/conexões a fim de criar, se adaptar e prosperar no mundo em mudança e, assim, aliviar o sofrimento e melhorar o bem-estar das pessoas.

Nós, terapeutas comunitárias e comunitários, nos percebemos em uma grandiosa e fortalecida teia – a partir dos fundamentos do pensamento sistêmico e complexidade –, que possibilita a compreensão vivida pela experiência do que é na prática o termo comunitário. Parte-se dos princípios de nos sentirmos fazendo parte de algo em comum, tais como valores e objetivos com promoção do senso de pertencimento e de resiliência comunitária.

A partir desse sentimento coletivo de coesão, segurança, reciprocidade, solidariedade e suporte social na rede viva de atores em TCI, é possível perceber que a existência da vitalidade entre os membros da teia, possibilita o fortalecimento de novas comunidades, com propriedades semelhantes, ou seja, primeiramente num movimento de vitalidade intracomunitária para depois o estímulo para a construção de vitalidades intercomunitárias. Estas percepções têm acontecido tanto no ambiente presencial, como no ambiente virtual.

As rodas de TCI, no meio cibernético, têm se mostrado uma estratégia fértil para o estabelecimento de conexões, para além das virtuais, trazendo afetos e vínculos saudáveis e transformações construtivas. Isto é possível pois a emoção não distingue entre virtual e presencial. Para os seres vivos, como relata Maturana (1990)8 , a experiência vivida, a emoção, seja uma ilusão ou uma percepção, sempre será real.

No ambiente virtual, como acontecem as rodas de TCI durante a pandemia, as emoções ocorrem ao falar constatando que os limites geográficos e a distância física não são empecilhos para estabelecer relações advindas dos sentimentos relatados durante a realização das mesmas. Essa interação recursiva, dada no escutar e conversar, sobre nossas emoções, tem favorecido a criação e o fortalecimento de vínculos saudáveis, solidários e comunitários.

Referências Bibliográficas

1. Tandon R. COVID-19 and mental health: Preserving humanity, maintaining sanity, and promoting health. Asian J Psychiatr.2020, 51: 102256.

2. Portella CFS et al. Evidence map on the contributions of traditional, complementary and integrative medicines for health care in times of COVID-19. Integrative Medicine Research.2020, 9:1-7.

3. Barreto AP. Terapia Comunit ária Passo a Passo. 3 ed. Fortaleza: Gr áfica LCR, 2010.

4. Silva MZ et al. Práticas Integrativas impactam positivamente na saúde psicoemocional de mulheres? Estudo de Intervenção da Terapia Comunitária Integrativa no Sul do Brasil. Cad. Naturol. Terap. Complem. 2018, 7(12):33 -42.

5. SisRodas. Sistema de Registro de Rodas de Terapia Comunitária Integrativa: Banco de Dados. Instituto Acreditar e Compartilhar Ltda. Disponível em: <www.acreditarecompartilhar.com.br/r odas/rodas>. Acesso em: 31 jul. 2020.

6. Barreto, AP, et al. Integrative community therapy in the time of the new coronavirus pandemic in Brazil and Latin America. World Soc Psychiatry.2020, 2:103 -105.

7. UNESCO. Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. Community Vitality. 2010. Disponível em: http://www.unesco.org/new/fileadmin/MULTIMEDIA/HQ/CLT/pdf/communityvi talitydomainreport.pdf. Acesso 11 set 2020.

8. Maturana H. Emociones y Lenguaje en Educación y Política – Colección Hachette -Comunicación Chile. 1990.

* Capítulo 5.5 del libro «O enfrentamento do sofrimento psíquico na pandemia: diálogos sobre o acolhimento e a saúde mental em territórios vulnerabilizados»

El libro completo se encuentra en https://abratecom.org.br/ y lo puede descargar aqui

** Este artigo é um agradecimento à rede viva de atores em TCI, incluindo os terapeutas comunitários e os 42 polos de Cuidado e Formação em TCI, que fortalecem diariamente nossa inteligência coletiva nesta teia da vida.

Sobre os autores:

Adalberto de Paula Barreto – doutor em psiquiatria pela Universidade René Descartes (Paris/França)) e em Antropologia pela Universidade Lyon (França); professor emérito da Universidade Federal do Ceará; presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria Social e criador da metodologia da Terapia Comunitária Integrativa.

Catalina Baeza Cárdenas – chilena, psicóloga clínica, terapeuta de família e terapeuta comunitária; diretora do Nütram Salud Comunitaria (Movimento Integrado de Saúde Comunitária Chile); formadora e supervisora em Terapia Comunitária Integrativa e Técnicas de Resgate da Autoestima.

Josefa Emília Lopes Ruiz – psicóloga, neuropsicóloga, terapeuta comunitária do Centro de Pesquisas da Infância e da Adolescência da Universidade Estadual Paulista (Unesp-Araraquara-SP); presidente da Associação Brasileira de Terapia Comunitária (Abratecom).

Jussara Otaviano – enfermeira especialista em Saúde Coletiva e Metodologias Ativas, mestre em Educação, terapeuta comunitária, docente na Unidade Anhembi Morumbi, coordenadora do Instituto Afinando Vidas (SP).

Maria de Oliveira Ferreira Filha – doutora em Enfermagem; docente do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal da Paraíba (UFPB); terapeuta comunitária.

Maria Jose Mendonça de Góis – terapeuta comunitária, assistente social; mestre em Gestão Urbana.

Maria Lucia de Andrade Reis – terapeuta comunitária, coordenadora pedagógica do Instituto Caifcom (RS).

Milene Zanoni da Silva – farmacêutica, terapeuta comunitária, mestre e doutora em Saúde Coletiva (UEL); vice-presidente da Associação Brasileira de Terapia Comunitária Integrativa (Abratecom) e integrante do Consórcio Acadêmico Brasileiro de Saúde Integrativa (CABSIN); coordenadora do Pólo de Cuidado Movimento Integrativo em Saúde Comunitária do Paraná.

Walfrido Kühl Svoboda – terapeuta comunitário do Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Paraná (HCUFPR); médico veterinário pela UFPR; mestre em Engenharia de Alimentos pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp); doutor em Ciência Animal pela Universidade Estadual de Londrina (UEL); professor-pesquisador do Programa de Residência em Saúde da Família e do Programa de PósGraduação em Políticas Públicas e Desenvolvimento da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila).